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A Grande Impostura

Para se poder perceber o que está a passar-se na Ucrânia, com o modo como a Rússia nos é apresentada pelos Estados Unidos, naturalmente ampliado por uma comunicação social acéfala ou cobarde, é essencial que se recordem as históricas armas de destruição maciça do Iraque, mas que, afinal, como Hans Blix sempre expôs, nunca existiram.

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Os acontecimentos que se estão a desenrolar na Ucrânia têm a seu montante uma história. Uma história que está hoje a manifestar-se à luz de uma fantástica impostura, esta a cargo de Washington. E não custa entender o que se vem passando, mormente com os atuas acontecimentos na Ucrânia, desde que se vá estando atento ao desenrolar das relações recentes entre os Estados Unidos, a China e a Rússia. E é sobre esta grande impostura norte-americana que hoje pretendo alinhavar algumas ideias, embora muito motivado pela reação crescente de concidadãos deveras sabedores e intelectualmente honestos, que lá vão conseguindo expor-nos uma parte de quanto está em jogo nesta questão da Ucrânia.

Para se poder perceber o que está a passar-se na Ucrânia, com o modo como a Rússia nos é apresentada pelos Estados Unidos, naturalmente ampliado por uma comunicação social acéfala ou cobarde, é essencial que se recordem as históricas armas de destruição maciça do Iraque, mas que, afinal, como Hans Blix sempre expôs, nunca existiram. E, como se pôde ver, não existiam mesmo. Mas também se pode recordar como Holden Roberto era recebido nos Estados Unidos com o falso nome de José Gilmore, depois de tantas vezes ser garantido a Salazar e a Franco Nogueira que tal não tinha lugar. Era a palavra de um falso aliado, como se pôde ver mais tarde, na peugada da cimeira açoriana em que se decidiu partir para a trágica Guerra do Iraque. Ou, ainda, o que se passou com o grande-almirante Karl Dönitz, que passou de condenado à morte para uma pena de 10 anos e 20 dias, depois de ter mostrado ao Tribunal de Nuremberga que Chester Nimitz, afinal, ordenara o mesmo no Pacífico.

A atual situação do mundo é hoje simples de perceber. Uma boa memória, de parceria com algum gosto pela temática das relações internacionais, permite compor o puzzle que está hoje em jogo nos acontecimentos da Ucrânia. Portanto, procurarei aqui dar alguma ordem ao meu pensamento sobre este tema.

Em primeiro lugar, depois do final da Segunda Guerra Mundial sobraram duas potências principais: os Estados Unidos e a União Soviética. A República Popular da China quase não tinha expressão no palco internacional, centrada que estava no desenvolvimento da sua revolução e sob a liderança de Mao. Surgiram as Nações Unidas e o mundo ficou dividido em duas áreas de influência, cada uma delas centrada numa daquelas duas grandes potências. Áreas de influência que nunca deixaram de existir, mas foram variando na sua forma e distribuição geográfica.

Em segundo lugar, os Estados Unidos, na peugada da ideia de Churchill, criaram a OTAN, com um comando militar supremo sempre sob a direção de um general, ou de um almirante, norte-americano: primeiro Eisenhower, depois Bradley, mais tarde Ridgway, Haig, etc.. Sempre um norte-americano, dado que a OTAN é, de facto, o braço armado dos Estados Unidos na Europa, e porque existem sistemas de armas a que só aqueles podem ter acesso.

Em terceiro lugar, surgiu depois o Pacto de Varsóvia, com que se tentou criar uma espécie de sistema-espelho da OTAN, e que era, de facto, liderado pela União Soviética. Nos dois lados existiam democracias, ditaduras e sistemas políticos autoritários. E dos dois pactos o mais interventivo foi a OTAN, mas por via, naturalmente, dos Estados Unidos.

Em quarto lugar, os Estados Unidos acabaram por criar, por todo o mundo, uma sua área de influência, desde todo o subcontinente americano ao Pacífico, passando por todo o continente europeu e pelo Médio Oriente. Objetivamente, tornaram-se os autênticos donos do mundo.

Em quinto lugar, Nixon e Kissinger conseguiram evitar uma possível ligação entre a União Soviética e a República Popular da China, mantendo com a primeira um acordo de cavalheiros, dando com a segunda início à célebre diplomacia do ping-pong, que levou Nixon e Kissinger ao encontro com Mao e seu Governo. Foi o início do que viria a ser, bem mais tarde, o verdadeiro grande salto da China no sentido do desenvolvimento global.

Em sexto lugar, o fim da União Soviética permitiu que os Estados Unidos se tornassem no único polo de poder no mundo. Simplesmente, surgiram dois fatores que se desenvolveram em paralelo: por um lado, a descoberta pelos norte-americanos de que a sua democracia se suportava em muito de fachada, sendo deveras injusta para a grande maioria; e, por outro lado, a República Popular da China acabou por ultrapassar os norte-americanos nos domínios da economia, mormente mundial, e da tecnologia, apenas ficando para trás – por enquanto…– no plano militar.

Em sétimo lugar, o surgimento de Vladimir Putin à frente da Rússia levou à aplicação de um plano de desenvolvimento suportado no ressurgimento da dignidade russa no mundo. De modo concomitante, a Rússia continuou numa situação de quase paridade no domínio das armas nucleares com os Estados Unidos. Estes ficaram, portanto, ensanduichados entre uma Rússia com amplíssimo poder nuclear e uma China com um poder económico e tecnológico único.

Em oitavo lugar, regressou o terror de uma hipotética aliança estratégica entre a China e a Rússia, que aliaria os poderes económico e tecnológico da primeira com o militar da segunda. Uma realidade que, para os Estados Unidos, foi sempre um velho pesadelo, já desde os tempos de Mao, Nixon e Kissinger.

Em nono lugar, a necessidade de alargar as fonteiras da OTAN, em ordem a colocar Moscovo ao alcance de menos de dez minutos dos mísseis daquele pacto militar. E, em simultâneo, o forçar da limitação de tudo o que possam ser negócios com a China, seja dos Estados europeus, seja de africanos, seja do subcontinente americano.

E, em décimo lugar, a fraqueza da União Europeia, realmente liderada por pigmeus da política internacional, que se mantêm alinhados e obedientes perante o senhor do mundo, que são os Estados Unidos. E é à luz destas realidades que tem de entender-se o que está a passar-se ao redor da Ucrânia.

Sempre defendi a ideia, com familiares, amigos ou conhecidos, de que os Estados Unidos recorreriam à guerra, nuclear se necessário, no caso de perceberam uma sua ultrapassagem por um outro Estado, ou grupo de Estados. E já não custa agora perceber a pressa em alterar a estrutura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ou em pôr um (suposto) fim na posse de armas nucleares, que são a garantia de que os Estados Unidos não podem subjugar a China ou a Rússia. À luz de uma aparente justiça, ou de uma procura da paz, o que se daria seria o triunfo final dos Estados Unidos sobre o resto do mundo. Aos Estados europeus restaria o papel de figurantes alinhados e obedientes, que é a situação em que se encontram já hoje.

A Ucrânia é hoje um problema apontado como grave, mas o Vietname, Guantánamo, a Estratégia de Tensão, as mil e uma ditaduras sempre apoiadas pelos Estados Unidos, o que se passa no Médio Oriente desde que surgiu Israel, etc., não têm qualquer importância, nem a grande comunicação social ocidental, dita livre, lhes prestou, alguma vez, um ínfimo de atenção ou de tempo de antena. Tudo é, afinal, a Ucrânia…

Por via deste texto, necessariamente breve, creio que se pode ter uma ideia do que hoje se desenvolve ao redor da grande impostura posta em andamento pelos Estados Unidos com o caso da Ucrânia. Ninguém se preocupa com os objetivos, mais que evidentes, do avanço da fronteira da OTAN, com esta disposta a abarcar tudo e umas botas mais.

E não deixa de ter um significado enorme o completo silêncio de António Guterres e das Nações Unidas ao redor do cabalíssimo incumprimento das garantias dadas pelos Estados Unidos à nova Rússia, depois do fim da União Soviética. Nunca tais garantias foram cumpridas, bem pelo contrário. E o que parece, afinal, ser um perigo terrível é a Ucrânia, para onde a OTAN se preparava para avançar…

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