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“A grande ilusão”

Mau grado este péssimo programa, eu ainda quero acreditar que os portugueses de hoje não são tolos, percebendo facilmente os riscos para o seu bem-estar que as mudanças na Constituição de 1976, defendidas pelo Chega! de André Ventura – e pela Direita de hoje, em geral –, naturalmente lhes trariam. Seria o fim do bem-estar que os seus pais e avós conseguiram.

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Passou, num dia destes, pelo final do noticiário da noite da SIN, mais um episódio da série, A GRANDE ILUSÃO, da autoria do jornalista Pedro Coelho, e que justificou, depois do que já se havia visto, o presente texto.

Parto aqui do princípio de que o leitor visionou o programa em causa. Se assim tiver acontecido, e se tiver estado atento ao correspondente conteúdo, certamente que se terá interrogado como aqui faço hoje. Portanto, convém que visione este mais recente episódio, o que poderá conseguir com grande facilidade.

Em primeiro lugar, convém ter aqui em conta que nós tivemos em Portugal o histórico concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE, e que conduziu à vitória, mais que esperada, de Salazar. De resto, como sempre escrevi sobre esta realidade, a mesma era garantidamente previsível, acabando o referido concurso por se constituir num mecanismo subliminar de desfavor da Revolução de 25 de Abril, da sua Constituição de 1976, precisamente por via de se ter mostrado, por aquele concurso, o real apoio dos portugueses, até já muitos anos depois daquela revolução, à personalidade de Salazar.

Em segundo lugar, como também escrevi já, o regime da Constituição de 1933 – a II República, portanto – suportou-se em três pilares principais: o Exército, a Igreja e o Povo. A Direção-Geral de Segurança, a Censura, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa, etc., eram já fatores secundários, que só puderam existir por primeiro terem lugar aqueles três pilares fundamentais.

Em terceiro lugar, neste último episódio, nos termos das imagens mostradas sobre Salazar, nada de mau por ali se viu que pudesse ser da responsabilidade política do antigo Presidente do Conselho. E quando Salazar nos surgiu, foi sempre a pronunciar-se sobre os tais fatores que suportaram o seu regime constitucional. Os fatores que, precisamente, sempre foram apoiados pelos portugueses do tempo. E tanto assim é, que Salazar acabou por vencer, como sempre se percebera, o tal concurso.

E, em quarto lugar, mostrar ali André Ventura como uma espécie de atualidade de Salazar, para lá de real e historicamente incorreto – André Ventura queda-se a anos-luz de Salazar, para lá do facto de nunca este aprovar, depois de décadas de democracia capazmente vivida, o surgimento do ideário do Chega! –, acaba por legitimar o próprio André Ventura aos olhos da tal maioria que deu a vitória a Salazar no tal concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE.

Mau grado este péssimo programa, eu ainda quero acreditar que os portugueses de hoje não são tolos, percebendo facilmente os riscos para o seu bem-estar que as mudanças na Constituição de 1976, defendidas pelo Chega! de André Ventura – e pela Direita de hoje, em geral –, naturalmente lhes trariam. Seria o fim do bem-estar que os seus pais e avós conseguiram por via da Constituição de 1976. Seria um futuro vivido à de uma aparente democracia, mas quase só com obrigações e sem a correspondente garantia em direitos.

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