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A Grande Batalha da Ucrânia, as Nações Unidas e Guterres

O Papa Francisco salientou recentemente que a ONU se mostra impotente para resolver problemas como o atual. Se a isto se juntar a referência da tal carta, a cuja luz a ONU poderá acabar, percebe-se que a mesma, de facto, vai terminar.

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Muito se tem discutido ao redor da intervenção militar especial das Forças Armadas da Rússia na Ucrânia. Como pude referir desde há uma semana e pouco, estando em curso uma guerra, tal não invalida aquele primeiro conceito. Apenas no domínio da mascarada das aplicações do Direito Internacional Público a diferença poderia ser relevante. Em contrapartida, passei a designar o acontecimento em causa como grande batalha da Ucrânia.

Escrevi ”poderia” e não “poderá”, porque qualquer julgamento futuro sobre o que está a passar-se não poderá ser isento, tal é a fantástica propaganda que o Ocidente vem colocando ao redor do que se passa. Chegou-se ao ponto de aceitar o regresso da censura, a proibição de russos participarem em acontecimentos desportivos ou outros, no confisco de bens sem decisão judicial, etc., etc.. A Rússia está já condenada, como estaria já a caminho dessa situação se nada do que está a passar-se estivesse a ter lugar. Há muito se preparava a marginalização global da Rússia. E quem diz Rússia, diz China, ou um qualquer país aonde aportaram os navegadores europeus, que logo, como teria sempre de dar-se, começaram a impor a supremacia dos conquistadores sobre os autóctones. E o resultado está hoje aí, bem à vista, com toda a reação ocidental à explosão desenvolvimentista da China, mas por igual ao equilíbrio formal dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Por sorte, tive a oportunidade de expor àquele meu histórico e falecido amigo o que, mais que naturalmente, se viria a passar: os Estados Unidos nunca aceitariam ser ultrapassados por um qualquer outro Estado, mormente a China, a Rússia, ou a União Europeia. E até lhe referi que, a dar-se uma tal situação, os Estados Unidos iriam para uma guerra, para tal criando a essencial justificação. E, como sempre, consigo arrastando os Estados europeus, que foram as antigas potências coloniais, mantendo-se, ainda hoje, como Estados neocoloniais. A prova disto mesmo está no pedido de Zelensky a Portugal para que exerça a pressão que é de esperar (por parte de uma antiga potência colonizadora) sobre os restantes Estados da CPLP. Os Estados, de facto, não são todos iguais nem têm o mesmo poder de influência. O caso do tal Sistema SWIFT é bem a prova do que escrevo. Mas vejamos, então, o que está em jogo.

Em primeiro lugar, a Organização das Nações Unidas. Tomo aqui por certo que o leitor conhece, de um modo aceitável, o modo como surgiu, bem como a sua estrutura. De modo que deixo ao leitor esta incumbência: tente imaginar uma organização com a correspondente finalidade, mas que funcione como imagina ser o adequado. Como verá, não vai conseguir nada de aceitável e que o contente.

O órgão de governação da ONU é o Conselho de Segurança, mas a verdade é que a organização está logo mal localizada, por ter a sua sede nos Estados Unidos. E a verdade é que António Guterres nada disse em resposta à pergunta da jornalista em Moscovo: o que pretende fazer para acabar com as recusas de visto dos Estados Unidos a pessoas das delegações dos Estados representados nas Nações Unidas? Bom, respondeu sem o fazer: fazemos tudo para que todos tenham visto de acesso à ONU.

Em segundo lugar, existem 5 membros permanentes no Conselho de Segurança e com direito de veto sobre as respetivas propostas de resolução. Nunca vi nesta regra nada de irreal, ou de ilógico, porque a alternativa simplesmente não existe. E não existe porque os Estados não são todos iguais e não dispõem do mesmo poder de protagonismo ou de influência. Lavrov, por exemplo, lembrou as bolsas de estudo oferecidas pelos Estados Unidos a muitas pessoas, o que cria naturais limitações aos seus Estados.

Tenho aqui que dizer que a presença da França no Conselho de Segurança mereceu dos Estados Unidos reticências, dado o colaboracionismo deste país com a Alemanha de Hitler. E foi por esta realidade que os Estados Unidos ainda estruturaram a hipótese de assassinar De Gaulle, quando souberam que a França se preparava para obter a sua bomba nuclear. E foi também por tudo isto que De Gaulle se ausentou da estrutura de comando da OTAN, como também há pouco defendia Marine Le Pen.

Em terceiro lugar, as Nações Unidas quase coincidiram com o surgimento da OTAN. Sempre aceitei a existência da OTAN, mas como resposta ao risco de imposição do comunismo por parte da extinta União Soviética, como esteve prestes a dar-se com a Grécia. Todavia, a permanência da OTAN depois do colapso comunista mostrou que esta estrutura, de facto, era o comando militar dos Estados Unidos no espaço europeu. Sem Estados Unidos, como se sabe, não existe OTAN. Assim, de uma estrutura claramente de defesa, a OTAN passou a ser uma estrutura militar ameaçadora, com clara tendência para crescer em número de Estados e no domínio geográfico.

Em quarto lugar, esta intervenção militar especial da Rússia teve como causa a progressiva agressividade dos Estados Unidos contra si. De resto, o próprio novo coronavírus também tentou ser utilizado, por parte dos Estados Unidos, contra a China, a fim de ser esta castigada e limitada no seu desenvolvimento e na sua expansão económica. De um lado, o Ocidente, capitaneado pelos Estados Unidos, do outro a zona asiática, com quase metade da população mundial, e agora prestes a independentizar-se do poder ocidental.

De modo concomitante, os Estados Unidos, através da sua OTAN, foram progressivamente cercando a Rússia. E como tive já a oportunidade de escrever, os Estados da União Europeia acabarão por tornar-se, obrigatoriamente, membros da OTAN, porque para tal serão empurrados por via de decisões tomadas sempre à revelia dos seus povos, antes através das exigências dos Estados Unidos.

Em quinto lugar, o Papa Francisco salientou recentemente que a ONU se mostra impotente para resolver problemas como o atual. Se a isto se juntar a referência da tal carta, a cuja luz a ONU poderá acabar, percebe-se que a mesma, de facto, vai terminar. Será substituída, em minha opinião, por uma estrutura mundial, liderada pelos Estados Unidos, que será, no fundo, a OTAN GLOBAL. O seu nascimento teve lugar, precisamente, em Ramstein, vindo a ser estruturada ao longo dos meses.

Em sexto lugar, esta OTAN GLOBAL é que irá passar a desempenhar o papel da ONU. Dela só poderão fazer parte Estados com democracias em vigor. É uma ideia essencial, porque a dita democracia confere uma aparência de legitimidade, levando mesmo muita gente a crer que o Governo materializa, de modo proporcional, a vontade da globalidade. Simplesmente, hoje esta realidade já se percebeu ser sem fundamento: há cada dia mais gente, por este nosso mundo, a descrer e a desinteressar-se da democracia. De resto, como um dia expliquei a um conhecido meu, filiado no PS e que se dizia socialista, a democracia só serve se for a Direita a ganhar. Já pensou o leitor o que se daria se, democraticamente, os portugueses dessem ao PCP 60 % dos votos…?

E, em sétimo lugar, o problema religioso, que o mesmo é dizer o do conflito de civilizações. Já se percebeu que a solidariedade europeia, mesmo mundial, é quase ilimitada, mas para brancos, loiros e de olhos claros; quase nada para pretos ou muçulmanos. São marcas do tal conflito de civilizações, que mostram a tal repugnante supremacia do branco sobre os restantes e do cristão sobre outras crenças religiosas. Uma realidade que explica o que se passa com Israel, e com o faz que anda do Estado da Palestina.

O que está hoje a passar-se na Ucrânia é uma grande batalha da guerra, já muito antiga, do Ocidente contra o espaço asiático, mormente Rússia e China. Uma guerra que teve um desenvolvimento rápido com o surgimento da OTAN, e agora com o seu alargamento em ordem a cercar a Rússia, e, mais recentemente, com a OTAN GLOBAL, com a finalidade de condicionar a China. Se a Rússia nada tivesse feito, perderia a prazo, mas fazendo o que fez, poderá vir a perder. Algo inacreditavelmente, os países asiáticos mostram-se incapazes de ultrapassar velhas conflitualidades, acabando, de vez, por olhar a História. E esta é marcada como expôs o embaixador Francisco Seixas da Costa a Miguel Sousa Tavares: mas isso foi sempre assim, houve sempre duas leis, uma para os Estados Unidos, outra para os restantes Estados. E é a realidade, que sempre pude perceber ao longo dos meus quase 75 anos.

Tal como escrevi ao tempo, com a vinda de um democrata para o poder nos Estados Unidos viria a guerra, coisa nunca existente nos quatro anos de Trump, O Bronco. O futuro, no entanto, será (quase) o mesmo: uma ditadura mundial, de aparência formal democrática, liderada pelos Estados Unidos e com um suporte religioso católico romano. O resto são tretas, mais ou menos dolorosas.

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