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A extrema-direita em Portugal

Entre nós, invariavelmente, nem se liga à política, vindo o futebol ou um qualquer programa sem nexo muito à sua frente. Por isso eu defini o português deste modo já conhecido de muitos: não viu, não ouviu, não sabe, não pensa, obedece. O português não quer chatices, esperando que as coisas se resolvam por quem tem poder para o fazer, desde que o faça com uma evidência de razão, com honestidade e com o mínimo de segurança global para cada um e sua família.

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Para se poder perceber o modo como a Extrema-Direita vem despontando em Portugal, é essencial olhar a História de Portugal dos Séculos XX e XXI. E tudo isto, naturalmente, não esquecendo nunca que a História é a Geografia em movimento. Convém, pois, nunca esquecer os mais que expectáveis efeitos da localização geográfica de Portugal, isolado do resto do mundo, apenas fazendo fronteira com Espanha e com o Atlântico.

Em primeiro lugar, são conhecidas as condições que acabaram por conduzir à mudança de regime político, com a passagem da monarquia para a república. O isolamento geográfico, de parceria com o clima, gerou um modo muito próprio de ir olhando a vida. Invariavelmente, os portugueses demandavam terras que lhes eram alheias, fosse em África, ou no continente americano, ou no centro europeu, embora existissem, por igual, outros destinos espalhados pelo resto do mundo, mas mais distantes e, por isso mesmo, muito menos procurados.

Este mecanismo, em maior ou menor grau, esteve sempre presente em Portugal, revelando a necessidade de procurar fora do país o que não se conseguia entre nós como elevador social. Mas tal estrutura funcional gerou também uma atitude fortemente egoísta, marcada pelo facto de apenas se conseguir vencer por iniciativa meramente própria, invariavelmente em face de um Estado fraco, que nunca se determinou a deixar de o ser. A verdade é que a História de Portugal vive marcada, mormente naqueles séculos, por este mecanismo.

Central na nossa História do Século XX é a II República. E, ao contrário do normalmente omitido, o regime constitucional de 1933 suportou-se, como tenho exposto amiúde, em três pilares absolutamente essenciais: no Exército, na Igreja Católica Romana e na tolerância e compreensão da grande maioria do Povo. Uma população, portanto, profundamente alheada do espírito democrático, até por reter ainda, de um modo claro, o que se passara durante a I República e no que tudo acabou por dar. Pelo que sempre pude ver, em tempos muito distintos, os portugueses mostravam-se satisfeitos com a existência de uma estrutura de moral e de ordem, com a evidência da honestidade moral e política de Salazar e com a garantia da estabilidade conseguida. É verdade que se vivia mal, mas só quem não visitou Espanha em 1971, como se deu comigo, poderia imaginar que as coisas eram aqui excelentes.

Havia, porém, dois fatores que, de um modo muito geral, não eram tidos em conta. Por um lado, o mais que natural cansaço com a defesa das antigas províncias ultramarinas, mormente ao nível dos oficiais dos quadros permanentes, que se foram reduzindo para níveis nunca imaginados. E, por outro lado, que o regime constitucional de 1933 era fortemente heterogéneo no domínio da sua estrutura humana de suporte. Como Salazar já pensava e contara a alguns amigos mais íntimos, o regime terminaria com a sua saída do exercício do poder. E assim se deu.

O Movimento das Forças Armadas, que gerou a Revolução de 25 de Abril, ao contrário do que muitas vezes é dito a muito alto nível, apenas foi tolerado. E, desde logo, porque a população portuguesa estava farta da contingentação destinada a defender as províncias ultramarinas. O raciocínio, que era de elaboração simplista, reduzia-se a esta ideia: os outros países europeus, que também haviam estado por todo o mundo, já haviam concedido a independências às suas antigas possessões, pelo que se nos impunha seguir esse mesmo caminho.

Conseguida a vitória na Revolução de Abril, de imediato os seus principais obreiros foram relegados para um plano completamente secundário, rapidamente ultrapassados pelos mudos aprumados, silenciosos e que foram esperando o tempo que, imaginavam, acabaria por chegar. E chegou. Chegou mas não por aqui, sim pelo fim da União Soviética, pelo triunfo do neoliberalismo, pela criação da globalização e, por fim, com a chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. E foi só a partir daqui que se começou a desenvolver, em Portugal, a presença ativa da Extrema-Direita.

Percebe-se já hoje que a vitória de Donald Trump se constituiu no maior perigo para a Humanidade. Mesmo tendo sido eleito pelos usuais mecanismos democráticos, percebe-se que se está perante um verdadeiro ditador, para mais ao leme de uma potência nuclear cimeira, e que não hesitará em pôr um fim na estrutura constitucional dos Estados Unidos se, por inacreditável erro dos eleitores, vier a ser reeleito. E não estamos nada longe de uma possível guerra com a China, assim ele entenda que, por essa via, poderá continuar no poder. É por ser esta a realidade que estimo, que entendo a publicação do livro de John Bolton. Mesmo sendo um falcão, ele ainda respeita a Constituição Americana e as tradições do país, percebendo o fantástico risco que advirá de uma reeleição de Donald Trump, o Bronco, mas um indiscutível ditador.

A vitória de Trump fez mudar o mundo, como já se percebeu. E por igual se percebeu que, com Trump, a ideia de Estado Democrático de Direito está em queda vertiginosa. Uma reeleição sua porá um fim prático na mesma. De resto, as pessoas já se terão dado conta de que não dispõem de poder, a não ser para votar. O problema é que esse voto não tem indicações políticas, apenas girando ao redor de ideias vagas e completamente incontroláveis pelos cidadãos. Por isso Salazar disse um dia que nunca havia lisonjeado os

homens ou as massas, diante de quem tantos se curvavam em atitudes que eram uma subserviência ou uma abjeção. E tinha razão, porque o Povo é badalado a cada momento, mas, objetivamente, não tem poder para exigir uma qualquer política. E mais: entre nós, invariavelmente, nem se liga à política, vindo o futebol ou um qualquer programa sem nexo muito à sua frente. Por isso eu defini o português deste modo já conhecido de muitos: não viu, não ouviu, não sabe, não pensa, obedece. O português não quer chatices, esperando que as coisas se resolvam por quem tem poder para o fazer, desde que o faça com uma evidência de razão, com honestidade e com o mínimo de segurança global para cada um e sua família.

E, em segundo lugar, a distribuição da atitude política dos portugueses. Não são fervorosos adeptos da democracia, mas não anseiam por uma ditadura, antes toleram a democracia. Elegeram Salazar como O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE, mas não apoiam, hoje, uma política como a implantada por este. Desejam, isso sim, que a democracia mantenha a segurança e a ordem pública, e que o Estado Social continue em vigor, porque o acesso a cuidados de saúde, ao saber e a uma velhice digna é incomportável para a sua esmagadora maioria.

A verdade é que existe uma Direita política, situada, até há pouco, por entre o CDS e o PSD. Estes concidadãos foram-se anichando naqueles dois partidos fundadores da nossa democracia. Uma minoria deles, porém, sempre desejou o fim da democracia. A falta de coragem e as condições da política mundial, impediram a sua manifestação mais aberta e organizada. Tendo começado pela mão de um ou dois intelectuais monárquicos nacionalistas, desde o início incorporaram a violência como uma ferramenta de intervenção social. Tal como as SA haviam feito no dealbar do nazismo alemão.

A vitória de Trump nos Estados Unidos potenciou o surgimento destes anichados no CDS e no PSD à luz do dia, mas, à semelhança do que fez Hitler com as SA, preferiram seguir o caminho da legalidade constitucional até chegar ao poder, atuando depois à luz das possibilidades que vierem a surgir. Assim se dá hoje com a nossa Extrema-Direita: diz não ser racista, nem xenófoba, nem o que mais possa ser de mau. Simplesmente, se quer ter representação parlamentar e crescer junto do eleitorado, tem, para já, de usar as regras estabelecidas. Depois, se os portugueses calharem a viver na Lua, logo se operarão as essenciais mudanças. Mas tudo passará logo a ser distinto se Trump vier a perder as eleições sem conduzir o mundo para uma guerra que o ajude a manter-se no poder.

Por fim, um erro de fundo do Estado Português: a completa ausência de educação dos nossos alunos ao redor dos Direitos Humanos, da Constituição da República, da União Europeia e da Organização das Nações Unidas. De um modo muito geral, os nossos estudantes quase não veem tratados estes temas nas suas escolas. Sendo expectável que o ambiente caseiro mantenha muitos dos males que vêm de trás, ou a escola trata de suprir estas deficiências, ou a si

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