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A escola

O ser humano, como se conhece bem, requer um tempo longo para atingir uma capacidade de autonomia essencial. Este tempo é também diverso, suportado em etapas bastante distintas, e começava, em geral, no seio da própria família, fosse porque as mães estavam em casa, seja porque os avós dão um amparo absolutamente essencial nas sociedades atuais.

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A pandemia, hoje em franco desenvolvimento por quase todo o mundo – excetua-se a China, que lhe pôs um fim quase seguro –, veio alterar, de um modo assaz profundo, quase todo o mecanismo social que vinha vigorando. Vive-se um tempo caldeado pelo medo, pela incerteza, pela imprevisibilidade e com assomos do pior que já se tinha vivido há umas décadas, e que muitos pensavam não ter regresso. A presença de Trump, O Bronco, na Casa Branca veio pôr toda esta ideia em causa. Objetivamente, o mundo está hoje à beira de uma ditadura global, muito facilitada pelas medidas aplicadas para conter a propagação da atual pandemia. Até o regresso do fanatismo religioso ameaça a tão badalada liberdade religiosa. Uma realidade que se mostra sempre razoavelmente sectária em cada Estado e à luz das suas tradições antigas. Olhemos o triste exemplo da Polónia.

Todo o século XX foi um tempo de grandes e fantásticas descobertas no domínio científico, bem como nas respetivas aplicações técnicas. Todavia, a presença de duas grandes guerras, da guerra em Espanha, do surgimento do comunismo soviético, bem como de diversas projeções suas em alguns lugares do mundo, determinaram uma ampla presença da intervenção cultural no seio das sociedades. E se a cultura se continuou depois de 1945, a ciência e a técnica tiveram profundos avanços em domínios inimagináveis. E tudo isto se fez acompanhar de um acréscimo do bem estar social, ao mesmo tempo que o interesse cultural profundo ia diminuindo.

No meio desta realidade multifacetada e progressivamente crescente, a escola foi alastrando, tornando-se acessível a cada dia mais pessoas, com o grau de escolaridade ampliado para níveis nunca antes atingidos. Tudo isto, todavia, fez-se à custa dos efeitos determinados pelo comando científico e tecnológico, mas também por uma diminuição acentuada dos conhecimentos culturais mais antigos, mais fundamentais, e que estiveram no cerne da construção dos grandes espaços marcados por traços culturais próprios. E um dos domínios mais obliterados foi o do conhecimento religioso, filosófico e histórico, sobretudo ao nível das grandes culturais mais referentes para o Ocidente, como a grega, a romana e a muçulmana, esta quase nunca tocada nos estudos operados no tempo de formação fundamental.

O ser humano, como se conhece bem, requer um tempo longo para atingir uma capacidade de autonomia essencial. Este tempo é também diverso, suportado em etapas bastante distintas, e começava, em geral, no seio da própria família, fosse porque as mães estavam em casa, seja porque os avós dão um amparo absolutamente essencial nas sociedades atuais. Ao menos, até ao surgimento da COVID-19. E não é difícil perceber que a formação do ser humano se suporta em três fatores fundamentais: a família, o ambiente cultural global e as caraterísticas de cada um. Mau grado tudo, as caraterísticas de cada pessoa, naturalmente condicionadas pelos outros dois fatores, só são atingidas numa idade já de grande independência e são o fator fundamental.

Acontece que as famílias, por todas as razões, não podem, só por si, formar os seus descendentes. Uma realidade que se torna claramente evidente quando os descendentes atingem o patamar universitário. A escola, portanto, não podendo ser, nunca, um depósito humano de apoio à família, é absolutamente essencial na formação da globalidade da autonomia dos que por ela passam, garantindo a capacidade de adaptação à diversidade humana e à superação de contrariedades naturais. E, como é natural e se espera, fornece também os alicerces para uma compreensão da realidade histórica por via da dominância de temas progressivamente mais autónomos. Brincando um pouco, se é verdade que isto anda tudo ligado, também o é que cada pequenina peça da grande realidade do universo se vai ampliando, precisamente, pelo acesso que a ciência e a tecnologia concedem ao domínio progressivo do conhecimento.

Claro está que a escola não é nunca alheia ao que a rodeia, nem aos acontecimentos que se vão desenrolando pelo mundo. Como com tudo o resto, a escola sofre os efeitos das altas e das baixas da globalidade da própria sociedade e das vicissitudes do mundo. O que implica, naturalmente, que a qualidade do seu produto também apresente variações. Todavia, a experiência demonstra que, sobretudo no domínio das aplicações profissionais, as limitações ao nível da qualidade inicial da escola se vão progressiva e acentuadamente tornando menos importantes. É, no fundo, o que se traduz, na Resistência dos Materiais, pelo Princípio de Saint-Venant.

No caso português é até interessante analisar, por exemplo, os estudantes que, estando no início da universidade ao tempo da Revolução de Abril, atingiram altos lugares nas academias, ou se doutoraram em universidades estrangeiras de grande prestígio, ou são hoje concidadãos de grande referência pública nos domínios da ciência e das suas aplicações. A balbúrdia daqueles anos esfumou-se, tornando-se simples recuperar o tempo perdido à medida que a idade foi passando.

Por tudo o que digo antes, é sempre preferível entrar na universidade do que o contrário. Com mais saber ou com menos. Mais bem preparado ou mal preparado. O essencial é estar lá. É de grande referência um antigo aluno do IST que, ainda antes da Revolução de Abril, terminou o seu primeiro ano com mais de 19 valores, explicando ao professor de Geometria Descritiva que ia deixar o curso porque não gostava muito daquilo. Ou

um outro, hoje um catedrático de grande prestígio, que reprovou a todas no seu primeiro ano. Com a família lá longe, deu-se à pândega que nunca havia conhecido desde que nascera. No ano seguinte, as notas foram caindo entre o 18 e o 19. Hoje, como digo antes, é catedrático de uma faculdade do maior prestígio, interno e internacional.

Os jovens de hoje, que tiveram o azar de se verem atingidos pelas vicissitudes que a COVID-19 lhes criou, podem facilmente ultrapassar as dificuldades que, porventura, possam surgir. Todavia, apresentam lacunas, mas que já vêm de muito longe. No tempo anterior à Revolução de Abril, o Grego e o Latim já não era obrigatórios para quem seguisse Ciências, Economia, Geografia ou Arquitetura. E mesmo o Grego também não era requerido para os que seguiam Direito, apenas o Latim. Depois, resta o interesse cultural: muitos determinaram-se a estudar o Inglês, ou o Francês, ou o Espanhol, ou o Italiano, mesmo o Alemão. Outros, obtiveram mais de uma licenciatura. Há os que gostam de música, ou de religião – na perspetiva cultural –, ou de geopolítica, ou de estratégia, etc.. São as decisões que derivam do tal fator que são as caraterísticas pessoais.

Por fim, um dado essencial. A presença do Estado, regulando a estrutura de transmissão do saber, é essencial, porque se tudo passasse para a área da vontade privada, torna-se simples perceber que as famílias de maior poder material teriam sempre filhos vencedores, ao passo que as de menores posses – a enormíssima maioria – sempre se ficaria pela possibilidade de conseguir lugares subalternos. Precisamente o que se teria dado se, ao tempo de Germano de Sousa como Bastonário da Ordem dos Médicos, se tivesse implementado o acesso a Medicina com base na apreciação do… perfil!! Bom, até o mais burro poderoso logo teria o perfil, se acaso pretendesse exercer Medicina. Há sempre que ter em conta que vivemos em Portugal, olhando, por exemplo, para o que nos conta, em livro, o académico Luís Menezes Leitão, sobre a subida de Marcelo Caetana à cátedra, de parceria com Jaime Gouveia.

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