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A entrevista de José Sócrates

Há um dado que não pode escapar aos mais atentos: os nossos jornalistas só parecem preocupar-se com José Sócrates e a Operação Marquês, deixando cabalmente de lado, por exemplo, o que o juiz Ivo Rosa, num destes dias, expôs à TSF ao redor da distribuição dos processos no Tribunal Central de Instrução Criminal.

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Só hoje consegui encontrar um mínimo de tempo para abordar a infeliz entrevista que José Sócrates concedeu, nesta recente quarta-feira, à 24, onde foi entrevistado por José Alberto Carvalho. Não creio que alguém possa considerar que a entrevista teve um ínfimo de utilidade com vista a esclarecer o que quer que fosse. Objetivamente, nada de novo surgiu em termos de uma luz sobre o imenso que já foi escrito e dito sobre este caso, mormente pelo próprio José Sócrates. Em todo o caso, há algumas considerações que se podem fazer ao redor do que se pôde apreciar nesta entrevista.

Em primeiro lugar, a entrevista foi de uma completamente nula utilidade, dado que nada permitiu esclarecer. O que se sabia, correta ou incorretamente, é o que hoje se continua a saber.

Em segundo lugar, não entendo que o modo de abordar os temas por parte de José Alberto Carvalho tenha sido o adequado. O que seria natural seria colocar questões que pudesse considerar importantes, mas dei-xando ao entrevistado, depois, o tempo necessário para responder às referidas questões.

E, em terceiro lugar, será realmente interessante que os nossos canais televisivos se determinem a tentar entrevistar o nosso concidadão Carlos Santos Silva, tal como diversos outros que surgem no processo da Operação Marquês, embora seja duvidoso que aceitem tais convites.

Acontece, todavia, que, no meio de tudo isto, há um dado que não pode escapar aos mais atentos: os nossos jornalistas só parecem preocupar-se com José Sócrates e a Operação Marquês, deixando cabalmente de lado, por exemplo, o que o juiz Ivo Rosa, num destes dias, expôs à TSF ao redor da distribuição dos processos no Tribunal Central de Instrução Criminal. É sem espanto que se acompanha a Circulatura do Quadrado, tal como o Eixo do Mal, ou O Último Apaga a Luz, ou o diálogo entre Marçal Grilo e Nobre Guedes, mas sempre sem que seja abordada esta recente revelação do juiz Ivo Rosa.

Com um pouco de perspicácia, percebe-se que nem Fernando Medina, ou Ana Gomes, ou Ana Catarina Mendes se preocuparam, infimamente, com esta revelação feita por aquele juiz. Ninguém, na nossa grande comunicação social, se determinou a pegar nesta revelação do magistrado. Nem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa nos veio agora dizer que é essencial que se apure, de um modo independente, o que existe de verdade nas revelações feitas à TSF por Ivo Rosa, mormente doendo a quem tenha de doer.

Por fim, algumas ideias minhas. Em primeiro lugar, será bom que os dirigentes do PS sigam o que desde sempre foi o lógico, ou seja, nem acusarem José Sócrates, nem lhe passarem um atestado de inocência. É essencial que o Sistema de Justiça, com os seus mil e um defeitos, faça o seu trabalho.

Em segundo lugar, convém que Ana Gomes compreenda que, mesmo que o PS a tivesse apresentado como candidata ao Presidente da República, nunca os eleitores do PS iriam entregar-lhe o seu voto. O resultado em nada diferiria do que se veio a ver. De resto, Ana Gomes é vista com graça, e tolerada nas mil e uma tomadas suas de posição, mas os portugueses nunca lhe entregariam um tão alto cargo.

E, em terceiro lugar, seria muitíssimo bom para o funcionamento normal de toda a nossa vida política que José Sócrates deixe de por aí andar a apresentar a ideia da sua cabal inocência, porque tal de nada lhe irá servir. Seja porque não venha a ser condenado, seja pelo contrário. Há muito os portugueses, na sua grande maioria, deixaram de lhe dar a sua atenção. E é por isso que a entrevista foi um tempo de antena sem lógica. Mesmo que possa ter tido uma grande audiência, que, a ser assim, só se terá ficado a dever ao espetáculo que as suas intervenções sempre comportam.

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