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A direita e a autocrítica maoista

Espero bem que António Costa não se deixe pressionar pelas tristes ideias de Ana Gomes, ao redor da tal desejada autocrítica, porque o saldo seria desastroso. E também que o líder do PS tenha a noção de que quase ninguém liga ao caso Sócrates. Foi um tema que, para lá da parte substantiva, há muito se esgotou.

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É sobejamente conhecido que uma boa parte dos mais jovens que, ao tempo, se bateram contra Salazar e o regime constitucional da II República está hoje na Direita que temos, porventura já mesmo na atual Extrema-Direita. É um fenómeno conhecido e que ultrapassa completamente as fronteiras de Portugal.

Esta atitude extremista, invariavelmente, deixa marcas difíceis de poderem ser extirpadas. Convenientemente adaptadas à atual realidade, tais marcas continuam presentes, embora surgindo em torno das novas problemáticas que surgiram com o triunfo neoliberal, depois de ter soçobrado todo o ideário comunista, e que também pôs a nu inconsistência do dito socialismo democrático.

A moda do tempo que passa, muito centrada na defesa dos naturais direitos das mulheres, determinou que algumas destas se vissem alcandoradas a lugares nunca por muitos imaginados. Um destes casos é o de Ana Gomes. Sendo uma mulher com méritos diversos, a verdade que se pode facilmente observar nas convivências correntes é que continua a não conseguir ultrapassar um limite cuja dimensão já se percebeu por quase todos.

A mais recente arma de combate de Ana Gomes vem sendo o que aponta como um imperativo de o PS fazer uma análise pública sobre como foi possível que José Sócrates tivesse chegado à situação que hoje costuma apontar-se. E, como pude já escrever, eu até compreendo muito bem esta luta mais recente de Ana Gomes, dado não ter tido o apoio do seu partido, percebendo todos nós que nunca o poderia ter, com ou sem Marcelo na corrida.

Estranhamente, Ana Gomes nunca se bateu, por razões de cidadania, por uma atitude similar, mas do PSD, para mais depois de se ter podido ver a fantástica sucessão de casos surgidos de militantes deste partido oriundos do designado tempo cavaquista. O caso mais revelador é, indubitavelmente, o de Domingos Du-arte Lima, sendo que outros, com natureza muito variada, há muito vêm sendo apresentados no seio da sociedade portuguesa. Tais casos não determinaram que um qualquer militante laranja de primeira água fizesse o que agora faz Ana Gomes, nem mesmo esta se lembrou de exigir do PSD uma análise ao que sobreio do tempo cavaquista.

De modo concomitante, Ana Gomes fala constantemente no caso dos submarinos, mas sem que um ínfimo de consequência tenha tido lugar. E o mesmo se pode dizer dos voos de rendição da CIA, sobre que tanta esperança quis depositar em Obama e Biden, mas de que nunca surgiu um ínfimo resultado. Uma realidade que atravessou as eras Bush, Obama, Trump e vai continuar em nada com Joe Biden na Casa Branca. Talvez daqui por umas três décadas se venha a conhecer um infiminho.

Espero bem que António Costa não se deixe pressionar pelas tristes ideias de Ana Gomes, ao redor da tal desejada autocrítica, porque o saldo seria desastroso. E também que o líder do PS tenha a noção de que quase ninguém liga ao caso Sócrates. Foi um tema que, para lá da parte substantiva, há muito se esgotou. E se o tema é ainda falado nas televisões, tal só fica a dever-se à falta de tema dos jornalistas, ou à persistência de Ana Gomes. Veremos se tenho razão no respeitante à sua próxima intervenção dominical, ou em novas entrevistas aos mais diversos órgãos de comunicação social. Ainda não a vi no i, nem no SOL, nem mesmo no NOVO, que bem poderiam deitar-se a convidar Ana Gomes. No fundo, é até fácil e barato, mas cada vez concitará menos a atenção, dado que ninguém liga a uma tal ideia sem um ínfimo de lógica.

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