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Entrevista a Sérgio Godinho: “A criação tem que ser solitária”

Sérgio Godinho, o trovador, o poeta, o compositor, o actor, o escritor, o ilustrador... o artista que representa um dos maiores marcos da música e da cultura portuguesa, com a afabilidade e a simpatia que lhe são tão peculiares, esteve à conversa com o Notícias do Nordeste. O encontro foi feito em Torre de Moncorvo no ano de 2008, onde o músico proporcionou um magnífico espectáculo num cine-teatro completamente esgotado. Entrevista em reposição

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Sérgio Godinho, o trovador, o poeta, o compositor, o actor, o escritor, o ilustrador… o artista que representa um dos maiores marcos da música e da cultura portuguesa, com a afabilidade e a simpatia que lhe são tão peculiares, esteve à conversa com o Notícias do Nordeste.

O encontro foi em Torre de Moncorvo no ano 2008, onde o músico proporcionou um magnífico espectáculo num cine-teatro completamente esgotado.

Nesta entrevista, Sérgio Godinho fala-nos do seu novo álbum “Nove e Meia no Maria Matos”, mas também expõe o seu pensamento sobre diferentes realidades. Além do regresso ao palco em muito curto prazo do actor Sérgio Godinho, poderemos esperar por um seu novo disco de originais em 2009.

Entrevista
Sérgio Godinho
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Noticias do Nordeste (NN) – O seu novo álbum chama-se “Nove e Meia no Maria Matos” e nele está assessorado por um grupo de músicos muito competentes. O que é este seu novo disco?

Sérgio Godinho (SG) – Este trabalho é a gravação ao vivo dos espectáculos feitos em Lisboa no Teatro Maria Matos, em Maio do ano passado. O “Assessorado”…, essa pergunta vem do facto da minha banda ter o nome de “Os Assessores”. Foi um nome que apareceu por alturas de um outro disco, em que havia uma canção que se chamava “Bem-vindo Senhor Presidente”. Falava-se nos assessores do presidente e começou-se a chamar por piada à banda “Os Assessores”. De facto, este grupo de músicos já está comigo, chamemos-lhe assim, desde o princípio deste século.

NN – É uma provocação?

SG – (Risos) É piada, não é provocação sequer. Até porque isto é um colectivo, embora eu seja aqui o presidente (risos) não oficial deste colectivo. Mas eu não sou o presidente de coisa nenhuma, excepto o de ajudar a organizar a desordem criativa. Ajudar muitas vezes a pô-la em ordem, sobretudo o que é importante, é que este grupo de músicos são meus cúmplices desde há muito, como digo, desde o princípio deste século XXI. E, há uma cumplicidade evidente, uma troca musical que eu acho que é muito profícua. Uma troca de experiências. Eles trazem-me visões também da música, que provavelmente algumas delas completam muito aquilo que existe no âmbito da canção que é a criação. A criação à partida é solitária, embora no caso de uma parceria possa ser partilhada com outra pessoa. Mas a canção tem que ser sempre solitária. É necessária essa solidão no acto primeiro de compor, de criar. Mas depois é preciso trocar. Digamos que a canção, adquira um corpo definitivo com os instrumentos, com os arranjos, com a própria atitude perante a canção, se é mais rápida, se é mais lenta, se o ritmo é um pouco alterado. E, na sequência dos espectáculos que já tínhamos vindo a fazer a seguir ao disco “Ligação Directa”, chegamos a Lisboa, ao Maria Matos, e achamos que era altura de registar isso tudo, e, dar a ouvir o nosso momento de forma, que me parece muito bom.

NN – O registo ao vivo é uma das particularidades do disco. Escolheu-o porquê?

SG – Eu gosto que as versões das canções, não sejam sempre as únicas e definitivas. Eu acho que o “ao vivo” permite ter uma outra escuta de canções. Umas em versões bastantes parecidas aos discos quando estão na sua versão original, mas outras muito transformadas. Há canções aqui, como o “Homem Fantasma” ou como o “Dias úteis” ou como “O Primeiro Gomo da Tangerina”, que é como começa o disco, que são muito transformadas, que têm uma outra atitude. Aliás, nós estamos a andar a ler um corpo de base que é imutável, mas, que depois sofre transformações ao longo do tempo. E, eu acho isso muito interessante.

 

“É necessária essa solidão no acto primeiro de compor”

 

NN – A indústria discográfica está num processo de reestruturação que foi quase como que imposto por uma nova instrumentaria, por um novo instrumento, que é a Internet. A Internet possibilita hoje uma forma diferente da distribuição da música. Muitas vezes até com prejuízos para os autores. O que é que pensa deste novo mundo de distribuir a música?

SG – Eu acho que é inevitável. É uma coisa que está a acontecer. O que é preciso é regulamentá-la. O que aconteceu é que a Internet apareceu e a lei vai sempre um bocadinho atrás. Começou a achar-se que era um mundo em que tudo podia ser gratuito. O que é certo é que está envolvido o trabalho de muitos criadores de muitos agentes, não é só de criadores. Eu como autor, como cantor, os músicos…, estou a falar do meu caso só para lhe dar um exemplo. Os músicos, os técnicos, os técnicos de som que gravam os temas, os editores que editam… tem é que haver uma regulamentação de maneira que a música continue a existir como actividade profícua e criativa. Porque senão pode ser a morte da música. Mas eu acho que não. Acho que por outro lado a Internet dá possibilidades de divulgação que são novas e às quais nós temos que nos adaptar muito simplesmente.

NN – Sérgio Godinho é um gigante da música e da Cultura de Portugal. O seu nome além de ser grande é um nome que se mantém grande ao longo de décadas, e isto é importante. Mas mantém-se sempre fresco, com novidade… com a capacidade de surpreender, o que faz com que tenha admiradores que vão surgindo ao logo de diferentes gerações. Sente-se um autor inter-geracional? Isto é, quando está a compor as suas músicas está a pensar que essas músicas vão ser ouvidas pelo senhor de sessenta ou pelo jovem de dezoito?

SG – Não. Não penso nada disso! É facto que sou um bocado inter-geracional ou pelo menos transversal em relação a idades e até as minhas canções mais antigas às vezes transitam. Por exemplo, neste disco “Nove e Meia no Maria Matos” há canções que têm vinte anos e outras que têm dois. Há canções que transitam de época para época. Mas eu quando componho não tenho essa preocupação. E até nas roupagens das canções não há essa preocupação. Eu acho que essa ponte se faz naturalmente entre as pessoas que ouvem e aquilo que eu tenho para dar. Eu acho que se for uma coisa muito calculista e calculada, a não ser que possa haver uma canção que tenha um alvo específico, e isso pode ter acontecido numa ou noutra canção, mas não é um ponto de partida. A ponte estabelece-se naturalmente.

NN – O Sérgio Godinho tem-se rodeado de músicos jovens que vêm da pop ou do rock português. Aconteceu com os Despe e Siga, aconteceu com os Clã. Pode-se então concluir que existe uma preocupação da sua parte em refrescar com a irreverência da malta mais nova, da malta jovem as suas canções mais antigas?

SG – Mas o que é irónico é que esses dois casos que referiu, aconteceu exactamente ao contrário. Três destes músicos eram do núcleo duro dos “Despe e Siga”, começaram a tocar comigo, ficaram muito entusiasmados e depois vieram ter comigo a dizer-me que: “nós vamos abandonar os “despe e Siga” e queríamos tocar contigo e fazer parte integrante deste projecto, e foi assim que aconteceu. No caso dos “Clã”, foram os “Clã” que vieram ter comigo, para um projecto que foi feito na altura da EXPO chamado “Afinidades” e que deu origem aos espectáculos ao vivo e a posterior fixação em disco. Portanto, esses dois exemplos, até foram no sentido contrário. Embora como é evidente eu também goste muito destes músicos e sinto-me muito bem, não só musicalmente mas também pessoalmente. Somos amigos. E isso é muito curioso, não há diferença geracional quando estamos a trabalhar ou no dia-a-dia quando jantamos juntos, ou quando almoçamos juntos. Ainda hoje, viemos em mais do que um carro, mas fomos almoçar ao mesmo sítio. Gostamos de nos reencontrar e isso é bom.

NN -Este seu novo disco evoca os Amigos do Gaspar através do tema “É Tão Bom”. Esta série televisiva marcou a malta toda que hoje está entre os vinte e tal e os trinta e tal anos de idade. Os “Amigos do Gaspar” foi uma incursão de Sérgio Godinho pela Música Infantil que ainda hoje continua estética e pedagogicamente interessante e muito actual. Pensa repetir essa experiência, da música e da produção dirigida à infância?

SG – Eu fiz várias coisas até. Nos “amigos de Gaspar”, depois fiz um disco com as canções todas da série, as letras eram minhas, mas as músicas eram de outro participante da série o Jorge Constante Pereira. Fiz também uma peça infantil, muito representada ao longo dos anos chamada “eu, tu, ele, nós vós, eles”. Tinha havido também uma outra série da mesma equipa dos “amigos de Gaspar”. Fiz mais do que um livro para crianças. Fiz um livro que tem sido inclusivamente estudado que se chama “o pequeno livro dos medos”, que também o ilustrei. É um livro que tem ido a muitas escolas e bibliotecas. Os alunos fazem trabalhos sobre o livro, sobre os medos, conceptualizando um bocado esse tema que é tão vasto. Fiz ainda outras coisas. Eu gosto de ter esse olhar sobre o universo infantil porque o compreendo naturalmente. Se calhar porque tive filhos de idades diferentes, Uma pessoa habitua-se a contar histórias. Mas eu acho que é um link natural o universo da infância. Deixe-me dizer só uma coisa, em princípio este ano, estamos ainda em negociações, para que saia em DVD “os amigos de Gaspar”. As negociações com a RTP tem sido bastante morosas, mas vamos lá ver se chegamos a bom porto.

 

“Estou neste momento a ensaiar uma peça”

 

NN -Nós sabemos que Sérgio Godinho não é só um compositor, músico, um poeta, é também actor, dramaturgo e até realizador…enfim, esteve sempre muito perto das artes de representação. Há quem anuncie que vai voltar à sua faceta teatral. Quando teremos de volta o homem de teatro novamente em palco?

SG -Estou neste momento a ensaiar uma peça, que vai estrear em Abril, encenada pelo Jorge Silva Melo, pelos artistas unidos, uma peça dum dramaturgo português jovem, que é duma excelente qualidade o José Maria Vieira Mendes. Esta peça que vai ser encenada pelo Jorge Silva Melo, foi um convite dele. Eu tenho tido convites para o teatro que tenho recusado, seja por o projecto não me interessar tanto como isso, seja porque, e isso aconteceu várias vezes, porque o timing era realmente muito mau. Um dos convites por exemplo, foi quando eu ia para o estúdio para o “Ligação Directa”, era impossível, era incompatível nessa altura. Mas desta vez, embora também me atrase, queria estar a compor neste momento, mas por outro lado, tenho muita necessidade de voltar ao teatro, pelo gozo, e digamos que para praticar outra vez o ser actor. Estar integrado num colectivo que está a funcionar muito bem. Estamos em ensaios activos, aliás eles estão a ensaiar hoje, eu não estou lá porque tenho este espectáculo aqui, e com todo o prazer. Aliás eu, gosto muito de vir aqui, mas isto é outra história e já falaremos disso. Em Abril lá estarei. A estreia é em Lisboa, não sei se vamos fazer outros espectáculos noutras cidades. A peça é chamada “onde vamos morar”.

NN – Vou-lhe fazer uma pergunta provocatória: ainda pergunta ao seu “amigo Manuel como vai Trás-os-Montes”?

SG – O meu amigo Manuel já morreu. A esse amigo Manuel não pergunto. Esse Manuel que eu refiro na canção é o meu amigo Manuel Hermínio Monteiro que foi o editor da Assírio & Alvim, transmontano de gema de Parada do Pinhão. Um tipo excepcional, e a canção era mesmo dirigida a ele. Fala de um caderno que uma irmã tinha que realmente existia. Eu não pergunto, mas tenho umas saudades enormes do Hermínio, todos temos, e cantei essa canção num espectáculo que fizemos em homenagem ao Hermínio, depois da morte dele. Ele esteve dois anos muito doente, teve um cancro, foi uma coisa muito dura. Ele foi realmente extraordinário, mesmo durante essa altura. Eu tenho uma ligação com Trás-os-Montes, não só através do Hermínio, mas também através de outros amigos e do facto de eu conhecer Trás-os-Montes desde muito pequeno, porque eu sou do Porto e vínhamos muito em viagens por estas bandas nessa altura. Quer dizer, estas terras eram mais inacessíveis nessa altura. Eu gosto muito do Minho, Douro Trás-os-Montes, é realmente um território que me é muito familiar e que me dá muito prazer. As pessoas são realmente muito calorosas e recebem muito bem. Voltarei aqui, penso que no 25 de Abril a Bragança, portanto estamos sempre aí.

NN – Ainda bem que diz que o Manuel era o Hermínio de Parada de Pinhão o editor conhecidíssimo no nosso país e que nós muito admiramos enquanto transmontanos. Eu fiz-lhe a pergunta porque queria referir-me a esse álbum, salão de Festas em 1984. E eu interpreto sinceramente o tema como uma abordagem de uma certa interioridade. Veio hoje a Moncorvo e com certeza que tem uma percepção particular deste interior. Qual é a sua opinião, enquanto cidadão, relativamente a este pais cada vez mais cindido entre um litoral a abarrotar e um e interior cada vez mais deserto?

SG – Só pode ser uma perspectiva preocupante. Eu acho que é preciso que haja pólos de atracão na interioridade. É certo que se fez um caminho, num certo reforço. Hoje em dia há pólos universitários, em cidades do interior. Desde o sul em Évora e à Covilhã, e continuando por aí a cima. Falo deste casos, mas podia falar doutros. Não é verdade portanto que esteja tudo perdido. Eu conheço gente que foi para o interior, seja para leccionar, seja para aprender, seja para trabalhar. Mas é verdade que o fluxo cinde o país em dois. Este é já um problema que se arrasta há muito tempo, porque a emigração, e que infelizmente ainda não acabou, porque as condições estão duras em Portugal. A emigração foi a primeira desertificadora, sobretudo das regiões do interior. Este é portanto um problema que se arrasta há muito tempo, mas tem que haver coragem politica sobretudo, de apostar cada vez mais no interior. Se isto é feito a certos níveis, e os acessos como digo, vão permitindo digamos que essa penetração, mas por outro lado há muito por fazer, muito por fazer neste país e no interior nomeadamente.

NN – Acha que ainda há espaço e sobretudo motivos para a intervenção política e social dos artistas musicais?

SG – Esse ainda, nem sequer se põe. Claro que sempre haverá, não é? Eu acho que olhamos à nossa volta, apoiando, preocupando-nos com outras coisas, denunciando muitas situações. Falando das insuficiências que existem. É sempre uma vertente nas minhas canções, embora haja muitas vertentes. Há vertentes mais da observação da realidade, uma realidade a nível psicológico, a nível de relações amorosas, a nível das interrogações filosóficas muitas vezes, a nível da construção de tipos populares que muitas vezes trazem em si uma moral, uma história. Há jogos de palavras, há o lado mais lúdico, o lado mais de contar histórias, portanto tudo isso se intermeia, digamos.

NN – Para quando um disco de temas originais?

SG – Isto atrasou-me um bocado. Penso que este ano vai ser um bocado difícil, mas trabalharei este ano para que no próximo ano haja um disco de originais.

Video da entrevista:

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