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A coragem e a falta dela

Ora, recentemente, uma organização de direitos humanos denunciou o elevado número de cirurgias destinadas a remover o útero de mulheres, realizadas num centro de detenção de migrantes na Geórgia, no sul dos Estados Unidos, muitas vezes sem consentimento das intervencionadas.

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A chegada de António Guterres às Nações Unidas, como se tem podido observar, quase nada resolveu. Sobretudo, naqueles domínios verdadeiramente importantes e ligados à defesa da dignidade humana. Basta olhar, por exemplo, o caso dos migrantes, que têm chegado à Europa, e logo se percebe que o resultado das Nações Unidas é quase nulo. Mas se olharmos a comunidade latino-americana que tem tentado entrar nos Estados Unidos, muitas vezes de modo ilegal, o que se contata são duas realidades: o desmembramento de famílias e o silêncio e a inoperância das Nações Unidas. E então se olharmos o regresso em força do racismo criminoso e da discriminação racial na sociedade norte-americana, bom, a inoperância é abismal.

Simplesmente, isto não é assim com todos os Estados. Não é assim, por exemplo, com a Venezuela, sobre cujo Governo surgiu agora um relatório das Nações Unidas acusando Maduro e o seu Governo de crimes contra a humanidade. Em contrapartida, a imunidade qualificada da polícia norte-americana, com a vaga de homicídios sem castigo sobre negros, já não constitui um crime contra a humanidade. E se a isto juntarmos a compra em massa de vacinas contra a COVID-19 por parte das grandes potências, discriminando as restantes, imensamente mais pobres, teremos uma outra situação que também se não constitui, no mínimo, em omissão de auxílio. E então crime contra a humanidade, bom, nem pensar.

Ora, recentemente, uma organização de direitos humanos denunciou o elevado número de cirurgias destinadas a remover o útero de mulheres, realizadas num centro de detenção de migrantes na Geórgia, no sul dos Estados Unidos, muitas vezes sem consentimento das intervencionadas. Simplesmente, estes acontecimentos também não tipificam, para as Nações Unidas, um crime contra a humanidade. Tal como as torturas legalizadas, ao tempo, pelo Governo de George W. Bush, ao contrário do que agora se pretende com as alegadamente atribuídas ao Governo de Nicolás Maduro. Mas esta denúncia vai ainda mais longe, referindo os cuidados de saúde negligentes prestados às detidas, incluindo ao redor da COVID-19.

Este crime foi denunciado por uma enfermeira identificada como Dawn Wooten, que trabalha na prisão de imigração de Irwin, administrada por uma empresa privada, sob a alçada do Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos. O grande problema, neste caso, é que as Nações Unidas, o próprio António Guterres, parecem não se ter dado conta de que se está aqui perante um autêntico isomorfismo do que se passou nos campos de concentração da Alemanha nazi e na África do Sul do Apartheid. Neste caso norte-americano também o conceito de crime contra a humanidade, para as Nações Unidas, parece não se aplicar. Não lembraria ao Diabo, mas é a realidade.

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