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A Comunicação Social Livre

Pode o leitor aquilatar do que pude já escrever, e por duas ou três vezes: em matéria política, nacional ou internacional, o que a grande comunicação social nos conta ou é falso, ou uma deformação da verdade. Ela tem vindo a ser transformada num terrível veículo de degradação da imagem da democracia e das suas instituições.

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Com um pouco de atenção, o leitor terá já percebido que o tema recente da intervenção da Justiça na Região Autónoma da Madeira passou a estar centrado no modo como, supostamente, a referida intervenção se teria dado, de pronto esquecendo a substância do que esteve em jogo, fugindo-se, cabalmente, a um ínfimo de investigação, ou sequer de análise histórico-política.

Num dia destes, já após os noticiários televisivos da noite, acompanhei uma dupla entrevista com Henrique Monteiro, que foi diretor do Expresso, e com o causídico Manuel Magalhães e Silva, precisamente ao redor da intervenção antes referida. Uma dupla entrevista que se poderá definir deste modo: se um dizia para matar, logo o outro pedia para esfolar. E tudo ao redor do modo como a tal intervenção havia tido lugar. E falava-se, ali, em espalhafato, ou espetacularidade.

No meio desta conversa a três, Henrique Monteiro mostrou-se admirado com o que se passou, ilustrando com operações diversas, nos Estados Unidos, mormente com a intervenção do FBI, em que costumam bastar dois ou três dos seus elementos. Bom, foi um momento de azar, porque existem casos em tudo iguais ao ocorrido há dias na Madeira. Um desses casos passou-se com uma intervenção em Porto Rico – também uma ilha –, com centenas de elementos do FBI, DEA e Imigração, de parceria com procuradores e juízes, e em que vieram a ser detidos o governador, o comandante da polícia e mil e um outros funcionários da Administração dos Estados Unidos.

Ora, há uns anos, ao tempo da saída de José Narciso da Cunha Rodrigues das funções de Procurador-Geral da República, tive a oportunidade de escrever um texto a que dei o título UMA ÁRVORE QUE MORRE DE PÉ, tal era o oceano de críticas que, injustamente, se iam fazendo ao senhor. E mais tarde, quando foi aprovado para o desempenho das funções de juiz conselheiro do Tribunal Europeu das Comunidades, voltei a escrever um novo texto, que intitulei UMA ÁRVORE QUE SE MANTÉM DE PÉ. Finalmente, voltei a comentar uma entrevista de enorme qualidade que concedeu à RTP Informação, na pessoa de António José Teixeira, já mais tarde.

Ora, ao redor desta recente intervenção judiciária na Madeira, surgiu, bastante inesperadamente, o nosso histórico juiz conselheiro, mas a distanciar-se do que se passou e do modo como tudo se deu. Simplesmente, este seu comentário teve um erro grande: baseou-se no diz-se, e para mais na nossa comunicação social, onde 140 podem ser logo mais de 200, ou mesmo de 300. Enfim, também o nosso juiz conselheiro é falível, como os demais mortais.

A conferência de imprensa desta tarde, do Diretor-Nacional da Polícia Judiciária, colocou tudo em pratos limpos, mostrando esta dolorosa realidade (ao menos) nacional: é fantástica a facilidade com que se inventam notícias. Afinal, os tais mais de 200, ou mesmo de 300, foram apenas 140 com mais dez. E recorreu-se a meios da Força Aérea Portuguesa por razões deveras evidentes, difíceis de concretizar através da aviação comercial. Mas mais: não houve qualquer fuga de informação, nem, do que seja do conhecimento de Luís Neves, qualquer violação do segredo de justiça. E muito menos o apetrechamento de um pelotão de jornalistas do continente, para ali deslocados logo na véspera. E, finalmente, o caso é ainda mais desagradável por se verificar o comentário de concidadãos altamente qualificados, e mesmo mui referentes, sobre dados colhidos por via do diz-se, como se deu com José da Cunha Rodrigues e José Souto Moura.

Pode o leitor aquilatar do que pude já escrever, e por duas ou três vezes: em matéria política, nacional ou internacional, o que a grande comunicação social nos conta ou é falso, ou uma deformação da verdade. Ela tem vindo a ser transformada num terrível veículo de degradação da imagem da democracia e das suas instituições.

Pôde agora ver-se, e bem à saciedade, como nunca existiram informações dadas de véspera a jornalistas, logo deslocados de cá para o Funchal, nem os elementos da Polícia Judiciária eram mais de 200, ou mesmo de 300, mas apenas 140 mais 10, nem tiveram lugar violações ao segredo de justiça, ou a presença de jornalistas nos lugares intervencionados, etc.. Mas se tudo isto é já muito mau, é ainda bem pior assistir a comentários de duas personalidades mui referentes do nosso Sistema de Justiça, mas sempre suportados no diz-se.

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