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A chicana do desespero

Quem acompanha os meus textos sabe já do meu conselho de há uma boa imensidão de tempo: coloque as sondagens de lado, pense por si, se acaso se interessa pelo interesse do País e pelo seu, e decida depois, evitando deixar-se levar por meros números. O acaso da vida, neste domínio das previsões, está até hoje muito bem ilustrado com o que se passa com a COVID-19 e as vacinas. Portanto, em política, pense por si e decida com a garantia que vier a conseguir.

Acontece que cada um de nós dispõe também da sua própria sondagem, conseguida por via do que vê e ouve nas convivências correntes de que é parte. Tudo junto, o que se percebe é que o Governo, tal como o Presidente da República, continuam a receber a compreensão e o apoio da maior parte dos portugueses que lá se determinam a tratar o tema da política, o que é raro.

Ora, a Direita e a Extrema-Direita conhecem isto muitíssimo bem, tornando-se evidentes algumas coisas importantes. Por um lado, o Governo atual, bem como o da Geringonça, permitiram a uma imensidão de portugueses reconquistar o que a anterior Maioria-Governo-Presidente, estrategicamente, se preparava para extinguir. Por outro lado, a Direita e a Extrema-Direita não nos explicitam, de um modo minimamente concreto, o que pretendem fazer com o Estado Social: Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social Pública e Educação Pública. Quais são, em concreto, as mudanças que pretendem implementar? Bom, simplesmente não respondem. De facto, nenhum político que tem como objetivo pôr um fim no Estado Social o poderá dizer… Portanto, a Direita e a Extrema-Direita lançam mão de tudo o que possa servir de caso, logo aproveitado pela grande comunicação social, ávida de audiências. Passou a valer quase tudo.

Um dos casos mais recentes, a que a Direita e a Extrema-Direita logo deitaram mão, é o do procurador José Guerra. Num ápice, a grande comunicação social, concomitantemente com aquelas duas áreas, ávida de audiências, de pronto lança raios e coriscos sobre o modo como o caso que conduziu à escolha de José Guerra se processou.

A Ministra da Justiça, na sua entrevista de ontem à RTP, no noticiário da hora do jantar, explicou claramente o que me pareceu não ter sido, ao final de toda a conversa, completamente transmitido aos portugueses, tantas foram as interrupções do entrevistador e as misturas de nota com carta e etc.. Portanto, pensando ter compreendido bem o que a Ministra da Justiça pretendia explicar, tento agora fazer alguma luz no falso problema, posto a correr, malandramente, por boa parte da grande comunicação social.

Foi criada uma estrutura judicial destinada a controlar os manuseios de dinheiro na União Europeia, creio que na sequência da criação da tal bazuca.

Cada Estado da União Europeia terá naquela estrutura um procurador. Desconheço se as candidaturas são por iniciativa individual, mas creio só poder ser assim.

Uma estrutura de seleção internacional avaliou os diversos candidatos surgidos por cada país e ordenou-os do primeiro para o último.

Esta estrutura colocou em primeiro lugar certa procuradora e em segundo lugar o tal procurador José Guerra. Simplesmente, esta seleção não é vinculativa para cada Estado, apenas indicativa.

O resultado chegou ao Conselho Superior do Ministério Público, que tomou a decisão de escolher José Guerra e não a tal procuradora.

O Conselho Superior do Ministério Público conhecia perfeitamente o currículo dos dois procuradores em causa. Sabia, portanto, que José Guerra, tal como a colega, não era Procurador-Geral Adjunto. Porém, escolheu, como era de seu direito, o que entendeu como sendo o melhor: José Guerra.

Esta decisão do Conselho Superior do Ministério Público não era vinculativa para o Governo, que poderia ter optado pela da tal comissão internacional. Mas o Governo, olhando a regra da separação de poderes, aceitou a escolha tomada pelo Conselho Superior do Ministério Público.

No meio de tudo isto, há uma nota das estruturas do Ministério da Justiça que foi enviada ao embaixador de Portugal junto da União Europeia. Nesta nota existem lapsos: diz-se que José Guerra seria Procurador-Geral Adjunto, mas não a tal procuradora. E dizem-se mais duas imprecisões sobre José Guerra, embora uma delas esteja mal explicada e não seja, de facto, uma imprecisão. Um dado é certo: estas imprecisões sobre José Guerra, ao nível da tal comissão internacional, levaram a que ficasse em primeiro lugar… a tal procuradora, e não José Guerra. Uma pândega!!

Por fim, não sendo a decisão da tal comissão internacional vinculativa, houve Estados que as seguiram e outros que não o fizeram. Não o fez Portugal, mas também não o fizeram a Bélgica e a Bulgária. Brincando um pouco, talvez também o nosso poder soberano tenha estado por detrás destas duas outras decisões.

A causa de toda esta baralhada é só uma: atacar o Governo de António Costa a qualquer preço. Sobretudo agora, com bons milhares a rezas pelo falhanço na campanha de vacinação e diversos outros a tudo tentarem para pôr em cheque a muitíssimo boa imagem de Portugal e do seu Governo no seio da União Europeia. Por tudo isto, insto de novo o leitor a tentar ler o discurso de Salazar no Palácio da Bolsa, no Porto, ao início da década de cinquenta, porque ajuda a perceber o que está hoje a passar-se por entre nós.

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Publicado por
Notícias do Nordeste