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A arte portuguesa de maldizer

Ora, entre nós continua presente, há uma boa imensidão de tempo, uma pobreza estrutural. Uma realidade que se materializa em problemas mais ou menos complicados, e que atingem todos, embora em situações diversas. No dias que passam, temos a atual pandemia, o surgimento do desemprego, a falta do essencial dinheiro atacar o inadiável e a incerteza perante o devir.

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É quase certo que o leitor não será o que se costuma designar por um jovem de idade, sendo imensamente mais provável que tenha já podido viver amplamente a vida. A ser assim, já terá somado um amontoado razoável de desilusões, depois de ter acreditado, ainda jovem, que as coisas iriam melhorar, mesmo com passos seguros a caminho do ótimo imaginado.

Ora, o dia de hoje terá trazido mais uma machada nos seus sonhos de sempre, porque certo estudo com algum gabarito nos dizia, sensivelmente, isto: Bomba relógio: as grandes cidades do mundo poderão dispor de potenciais novas pandemias. Devo dizer que nem achei estranho, porque lembro-me bem de Paulo VI ter chamado a atenção do mundo, numa sua intervenção nas Nações Unidas, para os riscos das grandes cidades.

Acontece que todos reconhecem, até de um modo simples, que os portugueses são especialmente dotados na arte de maldizer. Uma arte suportada numa pobreza crónica, geradora de inveja, que a tantos fez ir por esse mundo à procura de melhor sorte. O grande problema, contudo, foi o que se desenvolveu, ao longo das gerações, com os que ficaram.
Não custa reconhecer que as comunidades sedentárias dispões de uma população, entre si ligada por uma língua, com tradições de natureza diversa, logo a começar pelas de natureza religiosa, e politicamente organizadas. Como em tempos se dizia, e definia, existiam governantes e governados e uma autoridade soberana. Simplesmente, todas estas realidades podem assumir uma diversidade vasta de cenários.

Ora, entre nós continua presente, há uma boa imensidão de tempo, uma pobreza estrutural. Uma realidade que se materializa em problemas mais ou menos complicados, e que atingem todos, embora em situações diversas. No dias que passam, temos a atual pandemia, o surgimento do desemprego, a falta do essencial dinheiro atacar o inadiável e a incerteza perante o devir. E as certezas valem muito relativamente, para o que basta olhar as mais recentes dúvidas surgidas ao redor da vacina Oxford/AstraZeneca. E também há fome, tal como a mais que esperada consequência de tudo isto: graus diversos de loucura.

Claro está que é essencialíssimo enfrentar estes problemas, só que não existe uma solução, mas sim diversas soluções. E mesmo quando se deita mão de uma delas, em pouco tempo se percebe que as divergências começam a surgir sem parança, tudo se afastando do enunciado e do previsto.

Num dado momento, nas designadas democracias, se as coisas vão bem, a oposição não aplaude, mas se vão mal, a mesma pinta a coisa muitíssimo pior ainda. Um tema sobre que vale sempre a pena ler o tal discurso de Salazar, no Porto, no Palácio da Bolsa. Neste sentido, é hoje facílimo exigir o reforço do Serviço Nacional de Saúde, uma política de saúde adequada, um correto rastreio, sempre mais recursos, ainda mais planificação ao nível dos cuidados primários, etc.. É um momento de enorme facilidade, dado que se trata de simplesmente… propor e pedir.

Perante um tal desfilar, qual teorema plagiado, surge o naturalíssimo corolário português: o Governo não tem estado bem. Mas claro que quem assim fala se refere a António Costa, porque se as coisas fossem como se vê e estivesse no poder a anterior Maioria-Governo-Presidente, bom, tudo estaria a dar-se à luz das nossas possibilidades. E quem diz isto, diz o Congresso do PCP, operado à luz da legislação em vigor, precisamente para as situações de estado de emergência e de estado de sítio. Sem poder falar claro, fala-se por via do insinuês: tudo terá sido uma troca do PS com PCP e o resto! É um argumento ridículo, mas imagina-se que os portugueses, tantas vezes desatentos, lá enfiem o barrete.
Por fim, já numa situação de estertor, o lugar ao sonho: não será possível alterar a tal lei, que garante que nem no estado de emergência, nem no estado de sítio, a democracia pode ser suspensa? No fundo, como hoje pensam a Direita e a Extrema-Direita, os portugueses o que pretendem é ter o seu pilim no final do mês, porque eles mesmos fogem da política, dado que esta já não os toca.

A Direita e a Extrema-Direita portuguesas já só sonham com o regresso ao poder, mas agora, sob a orientação política do Chega! de André Ventura, para acabar com a atual democracia e aqui colocar uma IV República, a verdadeira, a legítima, a deles.

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