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“1967”, poema de Carlos d’Abreu

Poemário, rúbrica de Carlos d’Abreu, raiano do Douro Transmontano (1961), Geógrafo (USAL/UC), Arqueólogo (UP/USAL) e Historiador (UPT/USAL), colaborador do Centro de Literatura Portuguesa (UC); investigador, poeta (e diseur), antologista e tradutor; conta com várias publicações nestas áreas.

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O menino negro não entrou na roda.
“Venha cá, pretinho, venha cá brincar”
(Geraldo Bessa Victor)

(de novo Angola)

Luanda não era desta vez estação marítima
tinha âncora no Bairro Salazar
onde se conheceram 2 meninos brancos
que tinham como vizinho 1 menino negro

menino negro que servia família do putu
e que por vezes se juntava aos meninos brancos

um dia decidiram os 3 juntos passear
escolhendo como terreiro as acácias floridas
do jardim do Aeroporto. não os importunava
o ronco dos “barrigas de jinguba” ao levantar
apenas a paleta dos canteiros onde brincar

e como não sabiam que o tempo existia
continuaram a jogar para além do definhar do dia
mas para os pais dos meninos brancos lusco-fusco
(desde o 15 de março) é hora de “turra” sair

organiza-se então uma milícia que parte
e nada tardou a ouvir infantil algazarra
própria de meninos que do “esconde” fazem jogo

mas entre os 2 meninos há um preto
que não é menino, mas “turra” por certo
porque preto já nasce “turra”

mas as pequenas pernas africanas foram mais velozes
que as da corada “dona” Elisabete
e as do “patrão” ainda vinham longe

perdeu a família do putu o monandengue
ganhou o musseque mais um pobre
e o mato talvez futuro guerrilheiro

Carlos d’Abreu

``1967`` poema de Carlos d’Abreu
Poemário de Carlos d’Abreu
``1967`` poema de Carlos d’AbreuPoemário de Carlos d’Abreu
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“1967”, integra o livro de poesia “[des(en)]cantos e (alguns) gritos“, de Carlos d’Abreu, editado em 2017 sob a chancela da editora Lema d’Origem.

A narratividade dos poemas, associada ao tom coloquial, constitui outro traço distintivo da poética do autor. Muitos dos carmes, em todos os andamentos, evocam as narrativas mágicas e imemoráveis que vão passando de geração em geração. Esta narratividade, coadjuvada pelo ritmo rápido e cadenciado da quadra, predetermina a atenção do leitor para a reflexão e a procura de ‘novos sentidos e possibilidades’”.

Créditos da imagem:Jorge Abreu Vale

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