Informativo Digital de Trás-os-Montes e Alto Douro

Prova quase-real

À beira do primeiro meio século da Revolução de 25 de Abril, já em plena III República, conhecendo a nossa História, torna-se simples perceber esta realidade, já tratada desde há muito: existem constantes históricas que determinam o posicionamento de Portugal no contexto europeu.

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Tive já a oportunidade de mostrar que o argumento do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa sobre a causa de se ter obtido uma maioria absoluta nas anteriores eleições para a Assembleia da República estava errado: nunca foi a presença de António Costa à frente do Governo e do PS que determinou esse resultado. A verdadeira causa do mesmo resultou da argúcia dos eleitores, ao darem-se conta do precipício que lhes surgiria ao caminho se a Direita voltasse ao poder.

Imagine o leitor que possui um velho carro, já fora do mercado, assim como que a cair aos poucos. Morando no interior do País, necessitando da viatura para se deslocar, ao dia-a-dia, para o seu trabalho, percorrendo uma totalidade de 24 km, o leitor tomará uma boa decisão se se determinar a mantê-lo, mormente se não tiver riqueza para adquirir um novo. Sempre é preferível ter um em muito mau estado, que ter de andar aquela distância, faça sol ou chuva, a cada dia.

Deitei mão deste modelo a fim de ilustrar a situação política atual dos portugueses, perante as eleições para deputados à Assembleia da República que se aproximam: o Governo de António Costa bem podia ter feito muito mais e bem melhor, mas não permitiu que os portugueses acabassem por cair no tal precipício se tivessem seguido o caminho defendido pela Direita do tempo. Uma decisão suportada numa perceção muito aguda da realidade que estava em jogo naquelas eleições.

À beira do primeiro meio século da Revolução de 25 de Abril, já em plena III República, conhecendo a nossa História, torna-se simples perceber esta realidade, já tratada desde há muito: existem constantes históricas que determinam o posicionamento de Portugal no contexto europeu, hoje como quase sempre. Simplesmente, em tempo de eleições, como é agora o caso, num ápice surgem as mil e uma propostas anunciando que desta vez é que a coisa va mesmo para a frente. O problema, claro está, é que o tempo continua a desenvolver-se e com ele os acontecimentos históricos, de pronto permitindo perceber o valor inercial das tais constantes históricas.

Ora, num dia destes surgiu por aí um título de jornal, a cuja luz Luís Montenegro andará a tratar de descolar do peso da má imagem política deixada pelo terno Cavaco-Passos-Portas. Bom, é natural que tal notícia tenha muito de verdade, porque os portugueses, durante muitos anos, nunca irão esquecer o tal precipício em que aquele terno político esteve à beira de os fazer cair. Objetivamente, não irão esquecer tal facto político tão depressa.

Reside aqui, nesta realidade presente no espírito dos portugueses, a causa de o PSD de Luís Montenegro simplesmente não arrancar nas tão famigeradas e perigosas sondagens. E é esta a causa do constante ressurgimento de Cavaco em palestras e escritos de jornal: há muito Aníbal se deu conta de que o PSD não pode dizer ao que vem, ou ainda baixará mais as suas perspetivas eleitorais.

Como pude já escrever, o surgimento constante de Cavaco em ataques ao PS e a António Costa constitui uma prova quase-real de que percebe muitíssimo bem que o seu PSD simplesmente não deverá conseguir levar a carta a Garcia. E se a tal notícia de jornal for verdadeira, bom, tal significa que nem com Passos o PSD conseguirá retirar aos portugueses o Estado Social, que foi o que causou o susto que determinou a maioria absoluta, pelo que Montenegro andará agora a tentar descolar da imagem do seu histórico Passos, que tanto apoiou.

Finalmente, leia o tal texto de Cavaco, hoje publicado num qualquer diário, e perceba como o mesmo nada contém de substantivo, apenas ataques de política simplória: tudo está mal, o Governo é mau, muitos ministros são incompetentes, e até as tais contas certas já são apontadas, no mínimo, como de valor nulo. É a pândega, caro leitor. A pândega determinada pela aflição de se ter já percebido que os portugueses não largam o pássaro que têm na mão…

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